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Queridas leitoras
Dia 30/10/2011 minha mãe de 82 anos subiu, nos deixou, foi para outro plano, faleceu, o folego da sua vida lhe deixou... Na verdade, começou a ir embora desde que numa queda, perdeu a coragem de andar. Passou para cadeira de rodas, ficou acamada, sempre cheia de pessoas para cuidá-la foi ficando sem falar, foi emudecendo por livre vontade. Quando foi para a UTI, já não falava ...muito raramente balbuciava um som. Sua queda, literalmente falando nos abalou a todos, filhas, netos, genro, porque foi nos abandonando... Certa vez interrogada por uma das suas cuidadoras por que não voltava a andar, já que não tinha doença, falou porque não vale mais a pena.
Desistiu de viver, desistiu de lutar, se abandonou no torvelinho da morte, talvez por se sentir fraca para lutar, ou por saber suas limitações. Foi uma mulher fantástica, diferente, espetacular, na minha educação, e da minha irmã, foi exemplo de classe, elegância, postura, refinamento como não conheci ninguém igual.

Mulher de poucas palavras, voz grave, um gênio forte, muito sincera nos desaforos, generosa nos presentes e elogios. Lindíssima, traços nobres, beleza clássica, um bom gosto nato, um senso estétetico natural. Temos a tendência de endeusar os mortos, de classificá-los quase "santos", mas minha mãe tinha defeitos graves também, sua prepotencia, orgulho, egoismo, característicos da sua personalidade rara, de alguém que venceu sem ajuda de terceiros.
Acompanhei a sua trajetoria toda desde que teve a queda, até horas antes dela partir eu estava aos pés do seu leito na UTI. Foram meses de sofrimento, visitas torturantes, com hora marcada, esperanças frustradas, choro preso na garganta, revolta por sua desistência de viver. Vivi só para ela esse período, dando mais de mim do que imaginei que pudesse, falando com ela em coma, sussurando no ouvido dela como eu era sua fã, agradecendo pelo glamour que me ensinou, pelo legado de luxo que me deixou. Na verdade eu entrei num redemoinho, até o dia que acordei mais tranquila, dia de um sol suave, brisa fresca, nesse dia que acordei em paz, minha irmã me ligou e falou "Te, mamãe morreu". Somente hoje me senti apta para escrever, ainda de luto, coração dilacerado com a perda, mas voltando a superficie depois de meses submersa no mar do sofrimento. Sinto que minha vida vai tomar outro rumo, vou seguir agora sozinha, mais ainda. Mas mamãe me ensinou nunca baixar a cabeça, seguir em frente, cabeça erguida, banho tomado, sempre arrumada, perfumadissima, cabelo, roupa, unhas, tudo impecável, clássica para não errar, noblesse oblige! Seu nome era Glacy, esteja onde estiver meu muito obrigada por ter convivido com você, aprendido o que é ser lady, "senhora dos meus anéis".
Obrigada
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